Os riscos são importantes para a vida

2014-09-15 - Fonte: Estado de São Paulo
Comandante de grupo suíço de engenharia destaca a necessidade de assumir desafios para a construção da trajetória profissional

Os riscos são importantes para a vida

Com uma carreira de 20 anos no grupo suíço de engenharia ABB, o espanhol Rafael Paniagua comanda as operações da corporação na América do Sul e é CEO da unidade brasileira. Começou na multinacional como engenheiro de produção e foi conquistando seu espaço ao longo do tempo. Nascido em Córdoba, Espanha, há 44 anos, o executivo destaca a importância de aceitar desafios e novas oportunidades. Para ele, um bom trabalhador assume riscos para alcançar objetivos e crescer na empresa. “Tem de estar preparado para assumir os riscos, inclusive para, em alguns casos, fracassar. Mas as pessoas que aprendem com esses fracassos e se conhecem melhor, conhecem melhor as circunstâncias”, diz Paniagua.

No Brasil há cerca de 100 anos, a ABB tem como clientes a Vale e Petrobras, além de fornecer energia para concessionárias do País. O marco inicial de sua atuação em terras brasileiras foi o fornecimento dos equipamentos elétricos para o primeiro bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro.

Como você começou a carreira?
Basicamente, trabalhando no grupo ABB há cerca de 20 anos, desde os 24 anos. Comecei na área de produção em uma planta de transformadores de potência, em Córdoba, minha cidade de nascimento. Estudei engenharia industrial e fui contratado em 1994.

Era engenheiro de produção?
Sim. No meu primeiro ano, meu trabalho foi implantar um sistema de gestão dentro da planta, de software, um sistema informático para a gestão da produção.

Como se deu o seu crescimento na empresa?
Em 1995, assumi a liderança do planejamento e planificação da distribuição da produção. Foi um passo natural, porque no sistema de gestão que havíamos implantado, eu trabalhava principalmente para a gestão e planejamento. Algumas pessoas importantes souberam o que eu fazia na companhia e depois de dois anos eu virei diretor de produção. E, então, a minha função ficou ainda um pouco maior, como responsável de operações, cuidando do desenho, engenharia mecânica, a fabricação, manufatura, suprimentos. Estive nesta planta até o final de 1998.

E depois?
O passo seguinte foi um dos mais importantes da minha carreira. No final de 1998, o diretor geral da companhia me propôs ser diretor geral de uma outra fábrica, uma outra planta, em outra unidade de produção, em Zaragoza, em outra região da Espanha. Foi um momento importante para a minha carreira. Tive de decidir e tomar riscos, mas riscos são importantes para sua vida pessoal e profissional. Lembro que minha mulher estava grávida. Nós decidimos aproveitar a oportunidade, essa nova experiência de ir para mil quilômetros mais longe. Algo completamente novo para nós, um grande desafio. Marcou muito a minha carreira. Eu tinha 29 anos.

Continuou lá?
Em 2003, fui convidado para ir aos Estados Unidos, na Virginia, para uma planta parecida com a que liderava na Espanha (também de transformadores). Foi outro desafio importante, mudar de país. Apesar de eu liderar como diretor essa planta, eu comecei minha carreira como responsável global de produto. Ao mesmo tempo, começava a ser responsável mundial da ABB para esse tipo de produto (transformador a seco). Ao continuar a minha carreira, eu mantive essa minha responsabilidade global de 2003 até 2007. Depois, entre 2007 e 2010 eu fui o responsável mundial da ABB de outro tipo de produto, transformador de potência.

O que representou chegar ao cargo atual?
De 2011 a 2012, eu estive de volta à Espanha, como diretor geral da divisão de produtos de potência da ABB; dirigindo muitos funcionários, quatro fábricas, quatro plantas, trabalhando de forma intensa, conhecendo muitos clientes da ABB, desenvolvendo os mercados, produtos para exportação. Em junho de 2013, o grupo me convidou para ser presidente da ABB no Brasil. Foi um momento muito importante em minha vida. Foi fundamental, um desafio muito importante e bem interessante, principalmente por duas coisas: pela essência humana, as pessoas do Brasil, e pelas grandes possibilidades de crescimento. Viemos de uma crise econômica complicada nos países do sul da Europa. Vimos que a possibilidade de desenvolvimento e crescimento no Brasil são gigantes. E isso é um atrativo fundamental.

Nesses 20 anos, quais foram os fatores primordiais para seu crescimento na empresa?
Adaptação a muitas diferentes culturas. A ABB é uma empresa “multilocal” e multicultural. Há muitas nacionalidades entre os membros executivos, absorvemos todas as diferentes nacionalidades, em diferentes cargos de gestão, de direções gerais, globais e mundiais. Não há discriminação. É uma multinacional aberta a toda à diversidade. Isso ajuda muito que as pessoas cresçam na empresa, dependendo do que elas vão desenvolvendo.

Qual foi o maior desafio que enfrentou na carreira?
Acredito que foi a primeira vez que saí do meu país, em 2003. É um passo difícil, que marca a sua carreira. Ou você aposta na carreira internacional ou fica onde está, estagnado. Foi um grande desafio que deu certo e trouxe experiências bem positivas e satisfatórias.

Quais são as recomendações para quem quer ser executivo?
Para mim, a pessoa tem de ter uma preparação bem sólida, completar os estudos. Na verdade, a formação é contínua, não termina, vai se desenvolvendo ao longo de toda a carreira do executivo. Para mim, também há alguns valores que são fundamentais em uma carreira de executivo e em muitas coisas da vida, como a integridade. Não consigo ver nenhum líder, nenhum alto executivo, que não tenha grandes valores de integridade no que fazem todo dia. São valores que temos de trabalhar todo dia. Eu acredito que o tema intercultural, de integração com outras culturas, idiomas, outras vivências em outros países, em outras religiões, com outras pessoas. Assim, algumas pessoas desenvolvem suas competências mais rapidamente. Por último, tem de buscar e aceitar desafios. Há que se tomar alguns riscos para conseguir progredir na carreira.

O desafio é bem recompensado neste caso, então?
A minha visão é de que pessoas que não tomam riscos, não podem chegar a alcançar algum desafio. Tem de estar preparado para assumir os riscos, inclusive para, em alguns casos, fracassar. No entanto, as pessoas que fracassam, mas aprendem com esses fracassos e se conhecem melhor, também conhecem melhor as circunstâncias. A partir daí, a sua carreira fica ainda mais forte. Eu acredito que os desafios podem parecer muito grandes no início, até mesmo inalcançáveis, mas a pessoa deve ir em frente com o desafio e fazer todo o possível para se preparar e se rodeando de outras pessoas que me ajudem a cumprir esse desafio. Uma parceria importante em qualquer carreira de qualquer executivo é selecionar as melhores equipes, com pessoas que colaborem e sejam desafiadoras, tenham um olhar mais crítico e queira crescer. Que sejam os melhores em suas funções, inclusive melhores que o chefe.

Fracassos
“Tem de estar preparado para assumir os riscos, inclusive para, em alguns casos, fracassar. No entanto, as pessoas que fracassam, mas aprendem com esses fracassos e se conhecem melhor, também conhecem melhor as circunstâncias”

Busca